# Uma Parede Guardiã de Vontade

## Uma Forma de Tapas-Yoga

por

George S. Arundale

Um crime contra um é

Um crime contra o Uno

NOTA — Nestes dias de inquietação, quando os mensageiros das trevas têm liberdade de estar no mundo para desafiar a civilização, torna-se dever urgente de todos os que creem na civilização aceitar o desafio e torná-lo inofensivo, ou pelo menos minimizar sua nocividade.

Dentro da grande Lei esses mensageiros estão em ação, pois nada há fora da Lei.

Mas cabe àqueles que servem à Luz tornar impotentes os servidores das trevas.

E assim como as trevas buscam espalhar sua malignidade por todo o mundo, e entronizar a força sobre o direito, a tirania sobre a liberdade, assim também aqueles que são servidores da Luz não devem conhecer distinção de fronteira, nem de fé, nem de povos, devem ajudar a derrubar a força e a tirania de seu domínio impiedoso e restabelecer o direito e a liberdade em sua força.

Há alguns que desejariam conhecer algo de um Tapas-Yoga pela realização do qual a Luz possa brilhar cada vez mais, e as trevas se encolherem.

Estas notas são compiladas para eles, com a grave advertência de que somente aqueles que são puros de coração, humildes de mente e altruístas em ação podem esperar servir à Luz fielmente e sem perigo para si mesmos.

A Luz não faz acepção de pessoas.

Ela [Página 3] brilha igualmente sobre todos, e aqueles que buscam tornar-se seus canais devem saber que ela precisa queimar suas fraquezas, assim como queimará toda fraqueza em toda parte, e como queimará a força igualmente — para a purificação de ambas.

Que eles então primeiro entrem no Caminho de sua própria Purificação, para que o Fogo da Luz não os consuma, mas flua através deles para queimar as ervas daninhas do erro, a fim de que as flores do direito tenham espaço para crescer e cobrir a terra.

George S. Arundale — 1939 [Página 4]

# UM CHAMADO À VONTADE PURA

NECESSITAMOS no mundo de homens e mulheres de Vontade pura que se tornem, em escala muito pequena, uma Parede Guardiã contra a tirania, a opressão, a perseguição, a violência e o espírito de guerra em toda parte.

Tornar-se assim é uma forma de Tapas, isto é, uma forma de purificação através do Fogo do Espírito Divino em cada um de nós. Tais homens e mulheres devem ter alcançado, em certa medida, uma pureza, uma direção, uma impessoalidade, uma calma de Vontade que lhes permita receber ou atrair para suas chamas límpidas todas aquelas impurezas da vida que a tirania, a opressão, a perseguição, a violência e o espírito de guerra em toda parte de fato constituem.

Formar parte de tal Parede Guardiã que protege o mundo, e especialmente os fracos, contra essas impurezas, é um dos grandes atos de Yoga.

Mas tão repleto de perigo é para aquele que o realiza que só pode ser empreendido por poucos, e mesmo por eles apenas após cuidadosa preparação e autopurificação.

Necessariamente, só deve ser tentado por aqueles em quem habita o espírito de impessoalidade, [Página 5] de boa vontade para com todos, sem uma única exceção, de cuidadoso e constante autocontrole, de profunda compreensão quanto às razões espirituais, internas, verdadeiras de tudo o que se passa no mundo de hoje, de perfeita confiança na universalidade da Lei do Amor e da Lei da Justiça, e que contudo se reconheçam como parte dessas Leis — entre seus humildes agentes e encarnações no mundo.

# Um Yoga de Vontade

Aqueles homens e mulheres de Vontade pura que tentam a árdua tarefa de realizar este elevado e difícil Yoga devem tornar-se receptivos a tudo o que se passa em todas as partes do mundo, e planejar meditações periódicas, atos de Yoga, não apenas para conter a maré do erro, mas igualmente para fortalecer a maré do direito.

Devem estar em constante estado de pronta reação aos principais eventos do mundo, tanto nas trevas quanto na luz.

Mas o trabalho deve ser feito em condição de paz extremada, reverência e compreensão sem fronteiras.

# De Amor e Justiça

Devem saber, sem dúvida, que o Amor e a Justiça governam em toda parte, e devem honrar esse conhecimento mesmo diante das aparências que tanto nos afligem no mundo exterior.

Devem ser capazes de viver e agir de tal modo que, enquanto reconhecem a universalidade do Amor e da Justiça de Deus, saibam que são parte desse Amor e dessa Justiça, e devem agir em conformidade, agir em nome do Amor contra o ódio, em nome da Justiça contra a tirania.

[Página 6]

# Preparação para este Tapas-Yoga:

Aqueles que desejam tentar ajudar a suportar a tensão e o esforço dos pesados fardos do mundo devem prestar toda a atenção ao fortalecimento dos vários corpos que estarão ocupados em carregar o peso.

Somente assim esses corpos estarão constantemente aptos em saúde e vigor para o serviço que são privilegiados a ser chamados a realizar.

# A Dedicação do Corpo Físico

As forças do corpo físico devem ser preservadas intactas e não dissipadas em quaisquer autocomplacências.

Ele deve, naturalmente, ser mantido escrupulosamente limpo, tanto quanto ao próprio corpo, especialmente mãos e pés, quanto às roupas que veste.

Alimentação pura, uma dieta vegetariana regular e bem equilibrada, variada para atender às necessidades individuais, bom exercício, sono reparador, são vitais.

A vida noturna de teatros, clubes e outras diversões é sumamente prejudicial a toda vida real.

Fumar, e o consumo de álcool salvo sob orientação médica, tornam este Tapas-Yoga não apenas infrutífero, mas destrutivo de seu próprio propósito.

O corpo deve ser treinado para a graciosidade, dignidade, movimentos sem pressa e equilíbrio constante.

Deve ser tão harmonizado que, embora em emergências possa com facilidade realizar trabalho extra, normalmente deve se integrar tão perfeitamente com seus veículos companheiros a ponto de necessitar pouca ou nenhuma atenção.

Ser capaz de ignorar um corpo é sinal de sua saúde.

Deve-se lembrar que o corpo físico é o canal mais externo através do qual o poder para o bem flui para o mundo exterior.

Portanto, deve [Página 7] ser tratado como tal.

Nenhum templo é mais sagrado do que os corpos do homem, ou, na verdade, os de qualquer outra criatura.

Vamos à Igreja.

Adoramos no Templo e na Mesquita.

No entanto, cada corpo é uma Igreja viva, um Templo vivo, uma Mesquita viva.

Nós os tratamos como tal?

A Dedicação dos Sentimentos e Emoções

As forças do que chamamos corpo astral, o veículo dos sentimentos, emoções e aspirações, devem igualmente ser preservadas intactas, e o corpo sagrado deve ser guardado contra quaisquer autoindulgências.

As forças apropriadas a este corpo devem ser treinadas para fluir sempre para cima, nunca, sob quaisquer circunstâncias, para baixo.

E ele deve ser nutrido com os mais puros sentimentos e emoções.

Vigilância constante é necessária para que forças que no passado fluíram para baixo, como então pode ter sido correto, não continuem a fluir assim.

O poder criativo do sexo só pode ser invocado em seu cenário sacramental designado, como um ato de êxtase profundamente reverente que nos lembra que, mesmo como somos, somos Deuses.

Mesmo a mais leve indulgência pode muitas vezes ser, e geralmente é, o início de uma corrente que com o tempo se tornará uma avalanche avassaladora e desintegradora.

A Dedicação da Mente

As forças da mente devem ser dirigidas à busca do Real, da Verdade, não, como alguns erroneamente dizem, por amor à Verdade, mas por amor àquele poderoso, sábio e belo Serviço que só a Verdade pode dar.

A Luz da Verdade sozinha prevalece [Página 8] sobre as trevas da ignorância.

E embora a Verdade seja sempre elusiva – pois assim que pensamos tê-la apreendido, descobrimos que ela escapa do nosso alcance – ainda assim, no próprio buscar e segurar temporariamente, estamos descobrindo a Verdade, pois a Verdade está em toda parte.

A mente não deve ser, para nós, a assassina do Real.

Ela deve ser a descobridora do Real, e então a serva do Real.

Cada Veículo para o Serviço

Cada veículo é para aquele serviço que é a mais verdadeira autodescoberta e autorrealização.

E o mundo estaria mais avançado em seu caminho de civilização se alguns de seus maiores homens e mulheres estivessem empenhados no serviço em vez do poder, no dever em vez do prestígio.

Até que a vida seja supremamente dedicada a Ahimsa, a não-violência, haverá sempre confusão e infelicidade; e destas surgem a guerra, o ódio e todas as outras impurezas.

O Veículo da Lei

Talvez seja possível para alguns dar atenção ativa àquilo que é chamado de Intuição.

É através deste corpo que flui a maravilhosa força que percebe a Lei eterna em cada forma.

Através deste veículo somos capazes de perceber a Verdade em seu veículo de Lei, assim como através do corpo inferior da mente deveríamos ser capazes de perceber a Verdade como forma-conceito, seja concreta ou abstrata, através do corpo dos sentimentos e emoções a Verdade na forma de desejo, e através do corpo físico a Verdade na forma da própria matéria.

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Intento na Verdade

Para o fortalecimento da intuição, a natureza do indivíduo deve ser serena e imperturbável na mente, nos sentimentos, no corpo físico, intenta na Verdade, sem apego a qualquer de suas formas, mas percebendo a Verdade em todas as formas.

O veículo da intuição está diretamente conectado com a Vida como Lei, assim como os veículos inferiores estão concernidos com a Vida como Forma, pois mesmo a mente abstrata está concernida com aquelas formas que são a ponte entre a Vida e a Forma.

Prontidão para este Yoga:

Quais são as indicações?

Boa Vontade Positiva

Primeiro, um fluxo constante de boa vontade positiva para com todos, especialmente diante de, no meio de, críticas, má vontade, abuso, mal-entendidos.

Definitivamente, os membros deste bando de servos da Vontade devem ser capazes de oferecer a outra face se forem feridos em uma face, não em um espírito de resignação autossuficiente, mas em um espírito de reconhecer que a Justiça é a lei da Vida, e que de uma forma ou de outra a crítica, a má vontade, o abuso, o mal-entendido, aparentemente justificados ou não, devem resultar em bem.

Não-Violência Eficaz

Nunca a não-violência diante da violência, seja esta física, emocional ou da mente, é sem sua eficácia, mesmo que a força às vezes tenha que ser enfrentada com força.

Aqueles que realizariam este modo de Tapas-Yoga são não-violentos em [Página 10] pensamento, em sentimento e emoção, em palavra e em ação – sempre no que diz respeito aos seus próprios interesses pessoais imediatos, e sempre também, em todas aquelas coisas que estão fora de seus interesses pessoais imediatos, mas dentro de seus interesses pessoais mais amplos, como toda a vida deveria ser. E deve haver sempre o espírito de não-violência, mesmo que ações fortes, palavras fortes, sentimentos e emoções fortes, pensamentos fortes, possam ser convenientes para a proteção de outros e para fortalecer o Direito contra o errado.

Boa Vontade para Todos

Cada servo da Vontade é recomendado a fazer um exame cuidadoso de si mesmo, especialmente em relação aos outros, para que possa ter certeza de que realmente possui esta boa vontade positiva para com todos, sem exceção.

Assim purificado, ele será capaz de, calmamente, em toda serenidade, percorrer o mundo, forte, inabalável, livre de indignação e amargura, livre de todo espírito de denúncia e de todo senso de superioridade, autossuficiência.

Unificação Interior

Sua aura será pura e firmemente rítmica, graciosa em suas cores, com um forte e calmo fluxo para fora.

E ela estará sempre afinada com aquela poderosa aura da Hierarquia que tem toda a vida do mundo em sua santa guarda.

Canalização Silenciosa

Ele terá, assim, um senso de calma interior, de certeza interior, de poder interior, de unidade interior com a [Página 11] Vontade do Governante do mundo e Seus Ministros – tudo o que ele, na maioria das vezes, expressará em Silêncio, em meditação, impessoalizando-se em pura canalização, sempre com dignidade e com autocontrole, mesmo que de tempos em tempos haja ocasião para lutar, como Arjuna lutou no campo de batalha de Kurukshetra sob a orientação de Sri Krishna.

Ele manterá sempre dois terços de si mesmo em reserva.

Assim equipado, estará pronto para esta forma de Tapas-Yoga, desde que seus diversos corpos estejam em condição de saúde, de força, de harmonia.

Poder Criativo Vivo com o Real

Já declarei que o poder criativo, dado por Deus, de um servo da Vontade deve sempre ser enviado para fora, para vitalizar o Real.

Ele não deve guardá-lo para si nem usá-lo para si.

Dentro da vida conjugal, repito, deve haver não apenas contenção, contenção reverente por parte do homem, mas cada ato sexual deve ser um sacramento sagrado, realizado diante do próprio Altar de Deus.

Fora da vida conjugal, esse poder criativo deve energizar o Bem, o Belo, o Verdadeiro, da melhor forma que ele puder vê-los.

Fora da vida conjugal, ele deve viver no poder do verdadeiro celibatário que se casa com o mundo inteiro para que possa gerar a elevação do mundo.

Reverência, Boa Vontade, Compaixão

Dentro e fora da vida conjugal, para fins diferentes, o poder criativo está vivo com tremenda [Página 12] reverência, com tremenda boa vontade, com tremenda compaixão.

À medida que esses três frutos da criatividade crescem em robustez e boas ações, assim ele saberá que sua Divindade está despertando para a Autoconsciência.

Assim, as fronteiras mais exteriores de sua consciência estarão aptas para a expressão do Tapas-Yoga.

Sem isso, o corpo físico provavelmente se romperá sob a tensão que tal Yoga impõe a cada veículo, sem exceção.

Calma Irresistibilidade

Seus sentimentos e emoções devem estar, em medida especial, imbuídos de reverência, boa vontade e compaixão.

Nenhuma onda avassaladora de ódio ou horror, nem quaisquer desejos de vingança, nem exigências de que a ira alcance o transgressor – nada disso pode macular o poder e a pureza de sua natureza emocional.

Ele deve ser absolutamente calmo, e tanto mais penetrante na força de seus sentimentos e emoções, por causa dessa própria calma que se eleva às alturas e se estende às grandes profundezas.

Ele pode usar palavras fortes.

Ele pode realizar ações fortes.

Seus pensamentos podem ser vibrantes com definição penetrante.

Mas ele será calmo e, assim, conferirá a cada sentimento e emoção, a cada pensamento, uma solene e inquestionável irresistibilidade.

A pura Vontade que ele invoca para o serviço será boa vontade para com o opressor, não menos do que para com o oprimido, não menos para com o malfeitor do que para com a vítima do mal.

[Página 13]

Intenção Cristalina

Sua mente é cristalina em sua intenção sobre a Mente da grande Hierarquia, de modo que busca refletir a Vontade do Governante do mundo, e não as conveniências hesitantes do homem.

Sua mente se torna exaltada, elevada à mente-mundo, que é o pensamento de Deus.

Assim, sua mente se afia até aquela definição penetrante da qual já falei.

Os Mestres, nossos Anciões nessa grande Hierarquia, devem poder ver nas profundezas de seus sentimentos e emoções, tão cristalinos eles são, podendo assim vitalizá-los com segurança com os poderosos movimentos que pertencem a esse campo de consciência.

Os Mestres devem poder ver nas profundezas de sua mente, tão cristalina ela é, podendo assim vitalizá-la com segurança com o poder do poderoso Plano de Deus que ela se destina a refletir.

Os Corpos Renovados

Assim, o corpo físico deve ser renovado para o Uso Deles, e assim se torna pronto para este Tapas-Yoga de Transmutação.

Assim, o corpo dos sentimentos e emoções deve ser renovado para o Uso Deles, e assim se torna pronto para este Tapas-Yoga de Transmutação.

Assim, o corpo da mente deve ser renovado para o Uso Deles, e assim se torna pronto para este Tapas-Yoga de Transmutação.

Sintonizado com Amor, Lei, Justiça, Luz

Seu corpo intuicional deve ser igualmente dedicado, sintonizando-o com o sempre-funcionante, o universalmente-funcionante.

Amor e Lei e Justiça tanto de Deus [Página 14] quanto do Homem, como o Homem realmente é em seu Ser, embora não sempre, aparentemente, em seu Devir.

E se houver alguma consciência funcionante em seu corpo nirvânico de Luz, ele deve tornar-se essa Luz, não tendo mais que buscá-la, ou encontrá-la, ou segui-la. Tal é, para ele, o Nirvana.

Dedicação Ativa

Que cada aspirante a servo da Vontade se estimule em toda dedicação ativa a esses grandes passos de preparação.

Ele deve dedicar algum tempo cada dia a eles, não se esforçando em direção a eles, mas entrando neles quieta e pacificamente e tornando-se um com eles.

Ele pode achar útil realizar sua dedicação em algum espaço aberto de natureza intocada, onde o ritmo e a harmonia de seu crescimento não sejam de modo algum perturbados pela intervenção do homem.

Ou ele pode encontrar a estimulação necessária no Templo, ou na Igreja, ou na Mesquita, ou em algum outro lugar sagrado.

Ou ele pode achar suficiente comungar dentro de si mesmo, em qualquer lugar, a qualquer momento, em quaisquer circunstâncias.

Ou a música pode ajudá-lo, ou o canto, ou o vento, ou os cantos dos pássaros e o zumbido dos insetos, ou a calorosa amizade da Mãe Terra, ou os severos raios mensageiros de nosso Senhor o Sol.

Teste do Progresso

Mas ele deve tomar toda essa preparação com a máxima seriedade e senso de oferenda, sem reservas ou retenções.

E ele deve ser capaz, de tempos em tempos, de notar progresso, de descobrir que [Página 15] seu Eu está firme, ainda que lentamente, ganhando controle sobre seu eu.

Caberá a ele julgar, com toda a impessoalidade, sem espírito de medo nem qualquer espírito de favor, se está apto a correr o risco que desce sobre todos aqueles que realizam esse Tapas que é a ciência de transformar o mal em inofensividade e o bem em poder.

O Caminho da Vigília

E assim, ao prosseguir pelo Caminho da Vigília, deve guardar-se com todo o cuidado contra o desejo de querer qualquer coisa para si mesmo.

Nem um único desejo em benefício próprio deve encontrar forma em palavras, pois somente à medida que se esquece de si pode aprender a lembrar-se do mundo.

Muitos de nós esperamos atenção, esperamos favores, esperamos que nos seja dado trabalho a fazer, esperamos apreciação, esperamos reconhecimento, esperamos compreensão.

Um verdadeiro membro desta Banda de Servos da Vontade nada espera, nada pede, contenta-se em erguer os olhos para os montes de onde, bem o sabe, virá toda a ajuda de que jamais necessitará, pois é a ajuda do próprio Deus e dos Deuses.

Terá deixado para trás, bem distantes, todos os ciúmes, todas as depressões, todo o senso de injustiça, todo o senso de agravo.

Esses, de fato, causam estragos no Tapas e o destroem por completo, como faz toda expectativa em relação aos outros, sejam eles quem forem, por mais próximos, por mais queridos.

Estão esses fundamentos deste Tapas-Yoga bem e verdadeiramente lançados? Se sim, que haja ação.

Mas se não, que ele se acautele, para que não se desfaçam em pedaços e o sepultem sob eles por séculos.

[Página 16]

O Tapas da Transmutação:

Qual é a ação? Na pureza e no poder assim evocados de suas fontes Divinas, abrir as portas do seu Ser à escuridão, para que ela menos perturbe o mundo, ou que ao menos diminua sua nocividade, aumente sua inofensividade; e abrir as portas do Ser à Luz interior, para que ela se derrame e ilumine o mundo em desdobramento.

Cada um deve saber que está pronto

Mas que a impureza exterior não encontre impureza interior, ou fortalecerá a impureza interna, arruinará o próprio indivíduo e intensificará exatamente o mal que se busca dissolver.

Assim, é essencial que ninguém se contente em esperar estar pronto, em pensar que ao menos pode tentar fazer o seu melhor, com o pseudo-heroísmo de que fará a tentativa — que se quebre, se for preciso.

Ele deve saber que está pronto.

Deve perceber que está fortificado contra suas fraquezas, que está positivamente conquistando-as.

Elas devem estar diminuindo, e algumas devem ter sido transfiguradas.

Tapas é para os Destemidos

Os servos da Vontade não podem ser fracos.

Devem ser soldados, atletas espirituais.

Tapas é para os destemidos, os fortes, os determinados, os totalmente dedicados.

[Página 17]

Cadinhos de Fogo

Mas se a preparação for de fato alcançada, então os erros do mundo podem ser procurados, e em seu meio o devoto puro da Vontade, o servo puro do Tapas, pode vir, permanecer e enfrentá-los.

Sabendo que é seu senhor — não está pronto se uma única dúvida o confronta — ele lhes abre o seu Ser, seu Cadinho divino, no qual os Fogos de sua Alma dedicada flamejam para cima e consomem toda escória.

Em seus Fogos derrama-se o erro, e em total abnegação, em completa compreensão, sua pura Bênção intensifica os Fogos para seus poderosos propósitos, e o erro no erro é purificado até sua retidão.

Mensageiro de Seus Anciãos

Ele não se coloca em oposição, nem em espírito de denúncia, nem em atitude de julgamento.

Ele olha para aqueles que parecem ser os instrumentos do erro como poderia contemplar uma imagem gloriosa que tivesse sido submetida a uma terrível profanação.

Ele reverencia a imagem, mas busca remover a poluição.

Ele olha para a pessoa do malfeitor com toda a sua impessoalidade, com toda a sua calma, com toda a sua reverência, boa vontade e compaixão, com todo o seu entendimento, com todo aquele espírito de universalidade no qual, através do Yoga, ele tem imergido sua própria individualidade para seu ajustamento.

Mas ele a olha também com os olhos do Poder, da Lei, da Luz, com olhos que se tornaram servos da inexorabilidade.

Ele não tolera nada que se oponha à Vontade de Deus.

Ele permanece como um mensageiro dos Anciãos, e deixa que esse próprio mensageiro tenha seu caminho, sua palavra, seu domínio.

[Página 18]

Ele, a Luz, Encontra as Ondas de Trevas

De fato, ele tem menos preocupação com as pessoas e infinitamente mais com as ondas escuras do erro, da injustiça, da perseguição, da tirania, da traição, do poder, que se movem sobre a superfície das terras e engolfam os fracos e os indefesos, os pobres e os sofredores, e tudo o que poderia crescer felizmente para a Luz do nosso Senhor o Sol.

Tais ondas ele encontra.

Em direção a elas ele avança.

A elas ele abre o seu Ser no forte Silêncio de sua comunhão com a grande Hierarquia Daqueles que extraem Sua Vontade, Sua Sabedoria e Sua Glória dos poderosos Silêncios do Ser Universal.

Essas ondas entram nele em sua escuridão.

Mas nele não há escuridão alguma, nem sombra de mudança.

Nele há apenas Luz, a Luz que não vacila, nem se obscurece, mas sempre brilha cada vez mais intensamente para a glória do nosso Senhor da Luz, o Sol, até que por fim, nas infinitas distâncias do Devir, o próprio Homem se torne uma Luz Solar.

Ele não profere palavras.

Nele não há sentimentos nem emoções, nem esperanças nem temores.

Nele a mente está profundamente calma e inteiramente imperturbável pelo pensamento.

Ele é apenas ELE, um Deus que se apressa na estrada do Seu Devir, mas que se apressa no espírito de Sua semelhança com Seu Pai, suavizando todo o aparato do crescimento, toda a individualidade e personalidade do crescimento, todas as pequenas notas do movimento com suas cadências, com suas pequenas harmonias e discórdias fugazes, até a Melodia eterna da Vida enquanto ela varre a sua vida e todas as outras vidas, em cadências ricas e majestosas, cintilando na Luz do Sol enquanto ela [Página 19] se derrama em cascatas musicais daqueles reservatórios celestiais da Divindade aos quais ele obteve acesso através de uma Vigília perscrutadora de Preparação.

Ele busca seus Anciãos

Mas deixe-me dizer também que aquele que deseja tornar-se, em verdade, um servo da Vontade para este Tapas-Yoga deve sempre buscar a companhia daqueles mais sábios do que ele mesmo, para que possa se resguardar contra aquela inevitável fraqueza da carne, por mais disposto que esteja o espírito.

Que ele não fique sozinho, mas realize seu Tapas-Yoga invocando um Ancião em quem confie, invocando humildemente uma camaradagem em cuja elevação ele se sinta exaltado, erguendo os olhos para aquela Hierarquia em cuja Bênção ele determinou viver, mover-se e ter o seu ser para sempre.

Ele é inofensivo

Se ele deseja ajudar a tornar todo o mal inofensivo, como de fato pode, ele deve ser ele próprio inofensivo; deve elevar a inofensividade em si mesmo à mais alta potência que for capaz de alcançar.

Ele deve ser grandemente inofensivo em tudo o que diz respeito a cada um de seus corpos.

Sensível ao erro

Se ele deseja saber o que é e onde está o erro, como de fato pode, deve adquirir profunda sensibilidade ao erro, tal como ele se manifesta primeiro em si mesmo e também em tudo o que está imediatamente ao seu redor.

Ele deve guardar-se mui cuidadosamente contra viver naquele falso paraíso que dá a ilusão de que tudo está abundantemente bem com ele.

[Página 20] Nem tudo está perfeitamente bem com nenhum de nós, e se aspiramos a ser servos da Vontade por meio da realização do Tapas-Yoga da Transmutação, devemos primeiro exercer vigilância incessante a respeito de nós mesmos, certos de que há muito sobre o que estar constantemente vigilantes em nossas próprias vidas.

E ele deve aprender a estar disposto, até mesmo ansioso, para que outros critiquem os seus defeitos em sua presença, sem que ele caia no perigoso erro de imediatamente retrucar com a sua ideia sobre os defeitos deles.

Ser capaz de ouvir com calma, sem autodefesa, é um sinal de crescente aptidão para este Tapas-Yoga.

Ele utiliza Centros de Poder

Ele deveria, ao iniciar este Tapas, aproveitar toda vantagem de quaisquer condições favoráveis que possam cercá-lo.

Se ele vive em ou perto de um grande centro de poder, utiliza a sua força purificadora para fortalecer-se.

Há muitos centros de poder em quase todas as partes do mundo — centros de poder associados a Templos, Igrejas, Mesquitas, locais de reunião usados para atividades de elevação espiritual, lugares onde grandes personagens viveram ou vivem, sedes de nobres atividades filantrópicas, lugares onde o mar é especialmente nobre em sua natureza, onde grandes montanhas se erguem aos céus em sua glorificação de Deus, onde uma paz quase tangível permeia a paisagem, onde árvores imponentes ou clareiras cintilantes narram, de suas diferentes maneiras, a majestade da natureza, onde os bons viveram humildemente para o homem, mas grandemente para Deus.

[Página 21]

Os Picos externos invocam os Picos internos

Um nascer do sol, um pôr do sol, uma cascata de música, a imponência de uma tempestade, a paz de uma floresta, a delicadeza de uma clareira, o exemplo de um herói, a inspiração de um santo, a exaltação de um gênio — todos estes e muitos outros picos na grande cadeia da consciência universal são cenários favoráveis para a purificação do seu Tapas, ainda que o espírito de cada um e de todos eles possa ser evocado de dentro, sem auxílio externo, pois tudo o que é mais elevado externamente habita verdadeiramente no interior.

O Todo torna-se conhecido no Um

Serenidade, Inofensividade, Graciosidade, Reverência, Compreensão, Proteção, Calma, Deliberação, Silêncio estão entre as qualificações para este modo de Tapas, e em particular o poder de reunir o individual e o universal, de modo que o Todo possa tornar-se conhecido no um, e o Um no Todo.

Ele permanece como um Crucifixo

Um servo da Vontade deve estar disposto a realizar seu Tapas-Yoga em qualquer lugar, para qualquer propósito que possa parecer especialmente conveniente.

Ele deve, portanto, não ter preconceitos, não estar de modo algum apegado a qualquer país em particular, ainda que possa ter amor especial por uma terra individual.

Ele deve possuir aquela adaptabilidade que provém da crescente universalização de sua consciência e de sua vida, de modo que possa com facilidade adentrar o espírito de cada país e, ao mesmo tempo em que reverencia as suas alturas, ter profunda compreensão de suas deficiências e fraquezas.

Ele [Página 22] deve ser capaz de ir a qualquer país ou contatar qualquer fé e regozijar-se em suas alturas imponentes, ao mesmo tempo em que está ciente de suas deficiências evoluídas pelo homem.

Ele deve ser capaz de firmar-se em qualquer país ou em qualquer fé e fazer com que os seus esplendores ganhem mais profunda riqueza à medida que as trevas entram nele PARA AJUSTE.

Ele não tem necessidade de destacar nem a força nem a fraqueza.

Ambas virão a ele enquanto ele permanece em seu meio.

A força emanará dos Fogos fortalecida, enobrecida.

A fraqueza encontrará transmutação nos Fogos que flamejam de seu cadinho.

Ele permanecerá em um Silêncio que se espalha por toda parte, penetrando a terra inteira com uma elevação de todos os sons concretos do crescimento para as regiões de suas contrapartes abstratas e arquetípicas, de sua essência e propósitos reais.

Ele permanecerá em um Poder que não conhece medo nem preconceito, mas que se espalha por toda parte em impessoalidade enobrecedora, elevando cada menos terreno ao seu mais celestial.

Ele permanecerá como um Crucifixo, com os pés firmemente unidos, braços estendidos, cabeça ereta e olhos trazendo as majestosas distâncias do Eterno para o próprio presente.

Sobre esta Cruz, a própria escuridão será estendida para a glorificação da Luz que também deve servir; o próprio erro será crucificado para a inofensividade, em seu eventual voltar-se para a Luz.

Um Mensageiro para a Natureza

É interessante notar que o erro dentro do reino humano tem suas repercussões bem definidas sobre os reinos sub-humanos, pois noto [Página 23] em certos países que todo o reino vegetal – as árvores, as flores, os arbustos – está envolto em uma nuvem de depressão que induz a uma infelicidade muito lamentável.

O mesmo ocorre, é claro, com o reino mineral.

A própria terra, as planícies, os rios, as colinas, as montanhas, murcham sob o mal do erro cometido pelo homem contra o homem.

O mesmo ocorre também com o reino animal.

Seus habitantes são impedidos em seu crescimento, assim como o homem é impedido no seu.

Torna-se imediatamente claro que o erro cometido em uma parte da Consciência Universal se espalha por toda a Consciência e a retarda, enfraquece seu movimento para frente, sua vitalidade espiritual.

Torna-se abundantemente claro que a vida é una e indivisível, mesmo que possa ter vários elementos constituintes e relativamente independentes.

Teremos de aprender que não podemos cuidar de nossos próprios assuntos sem aprender a cuidar de todos os assuntos, pois não há assunto em qualquer parte do mundo que não seja, em última instância, também nosso assunto.

Este modo de Tapas-Yoga é, de fato, um reconhecimento do fato de que nosso assunto é universal, apenas devemos saber bem como cuidar dele – sempre com compreensão.

Assim, cada servo da Vontade deve buscar não apenas neutralizar o erro em ação no reino humano, mas deve igualmente buscar libertar os reinos sub-humanos das nuvens escuras nas quais esse erro os envolveu.

Ele deve ser um mensageiro para os homens, mas também deve ser um mensageiro para a terra, para as colinas, para as montanhas, para as [Página 24] árvores, as flores, os arbustos, os animais, na verdade para todas as criaturas viventes, pois o erro em qualquer lugar significa erro em toda parte.

A civilização, o crescimento, param enquanto o erro vagueia por aí.

Instrumentos de Amor e Justiça

Que cada servo da Vontade lembre-se constantemente de que é um instrumento do Amor de Deus e de Sua Justiça.

Não para determinar a natureza de Seu Amor, moldando-o, confinando-o, à sua imagem dele, nem para determinar a natureza da Justiça de Deus, moldando-a e dirigindo-a em termos de sua medida dela. Mas para fazer com que o Amor e a Justiça de Deus fluam através dele, enquanto ele permanece firme em Tapas, talvez sem saber o que é que surge através dele, nem para onde está dirigindo seu poder, mas descansando no Senhor e confiando simplesmente Nele.

A Descoberta do Eu

Algum dia, talvez, quando cada um de nós se conhecer mais verdadeiramente do que conhece atualmente, seremos capazes de habitar nos próprios corações de nós mesmos e, a partir daí, realizar o Tapas-Yoga apropriado às singularidades de cada um de nós. Então conheceremos nossos respectivos Raios de forma, nossos respectivos Raios de cor, nossos respectivos Raios de som, e as oitavas de cada um.

E saberemos também onde está o centro de cada um de nossos veículos de consciência.

Desvendar os fios dos erros passados

E se estivermos conscientes, como de fato devemos estar conscientes, do erro, de ter causado, de ter causado [Página 25] sofrimento e angústia, de ter usado nossas faculdades para triunfar sobre os outros e para rebaixá-los, então estaremos ocupados, a qualquer custo, em desfazer tudo isso, em desvendar os fios que tecemos em padrões feios.

Seremos severos conosco mesmos, nos desafiaremos, seremos drásticos conosco.

O Direito e a Justiça estão sempre prontos para triunfar sobre o erro e a injustiça, e para transformá-los de sua escuridão em sua Luz.

O Pesar da Redenção é vosso

Não há erro em nossas vidas que não possamos corrigir.

Não há sofrimento que tenhamos causado, nenhuma angústia, nenhuma injúria, nenhuma vitória insensível, que não possamos reparar, pois se houver uma vez a vontade constante de reparar, reparar devemos, pois estaremos colocando em movimento uma roda de retidão que rolará e rolará até triunfarmos na reparação que fizermos.

E chegará o tempo em que até mesmo acarinharemos nossos erros, pois veremos que eles nos ajudam a nos aproximar de todos aqueles que cometem erros ou que sofrem sob erros cometidos contra eles.

Não há nada na vida que não tenha seu objetivo glorioso, nem mesmo o mal, o erro, a tirania, a opressão, a dor e o sofrimento.

E enquanto o pesar deve vir àqueles que infligem tudo isso, é o Pesar da Redenção que tem seu clímax na esplêndida e nobre aspereza de uma alma marcada pela batalha.

Não precisamos ter medo de nossas falhas.

Enfrentemo-las e moldemo-las em um grande caminho de Compreensão e Serviço.

[Página 26]

DEVEMOS SUPORTAR!

Quão difícil é este trabalho de tornar-se um tijolo na Muralha Guardiã da Vontade talvez possa ser deduzido do seguinte relato de uma de minhas próprias atividades como humilde servo da Vontade.

É um registro de uma noite específica de trabalho na Alemanha, escrito após retornar ao meu corpo físico em Adyar, e a frase tão constantemente repetida foi a frase que me encontrei falando ao retornar à consciência externa, que me encontrei dizendo repetidas vezes até que pudesse controlar plenamente minha consciência do plano físico: "Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar."

Gostaria de salientar que tal trabalho tem de continuar noite após noite sem qualquer intermissão, mas é de muitos tipos diferentes.

Incluí o registro neste livro para que aqueles que desejam tornar-se servos da Vontade para os propósitos particulares indicados não estejam sob nenhuma ilusão quanto à sua simplicidade e leveza.

É um trabalho muito árduo, necessitando de corpos tão espiritualmente atléticos quanto pudermos torná-los.

É um trabalho que muitas vezes parece difícil demais, insuportável.

É um trabalho que certamente nos moveria à indignação, até mesmo ao ódio, não tivéssemos uma equanimidade e um entendimento sem fronteiras que nada pode abalar.

Se uma vez nos afastarmos de nossos centros de perfeita equanimidade e permitirmos que sejamos influenciados por aquilo que nos assola, faremos muito mais mal do que bem e nos tornaremos inúteis para este tipo de trabalho.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Pois adentro os lugares de negra desolação onde a crueldade reina sem controle, onde a misericórdia é desconhecida, onde a luxúria dos selvagens busca suas vítimas e as cobre de sofrimento terrível e desonra horrenda.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Pois ao meu redor, erguendo-se até mim em apego patético e lastimável, estão aqueles a quem nada restou senão o mais absoluto desespero.

Eis um amigo! Haverá, então, por acaso, mesmo o mais débil lampejo de esperança?

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Famílias, famílias, famílias — avôs e avós, pais e mães, crianças, crianças, crianças, parentes, amigos íntimos, as alegrias de casamentos prestes a serem abençoados, pequeninos prestes a nascer, paz, prosperidade, vida árdua, mas gratidão pelas misericórdias do amor e da camaradagem.

Em meio a tudo isso irrompe uma selvageria calculada e regozijante, e a ruína trágica desola em agonia inconcebível.

Agonia insuportável? Às vezes, e então o suicídio desesperado.

Caso contrário — deve ser suportada, e é.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Vejo todas essas coisas.

Elas não podem ser ocultadas de mim. Nenhuma mordaça na imprensa, nenhuma declaração mentirosa pode ocultar a verdade de mim, pois tenho o direito, tenho o dever, de saber, e portanto de ajudar o melhor que posso.

No resplendor do meu corpo de cor e sob o símbolo d’Aquele que é Senhor de tudo, movo-me entre as nuvens negras do desespero desolado.

E as criancinhas se apegam a mim, chorando pelo amor que já não é delas.

Jovens homens e mulheres me desafiam a justificar meu resplendor e a cumprir a Estrela.

Jovens esposas e jovens maridos erguem para mim seus recém-nascidos e apaixonadamente exigem que eu os liberte.

Os velhos olham para mim em silêncio, desalinhados, os olhos obscurecidos pela escuridão interior.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Pois os malfeitores riem de mim. Desafiam-me a salvar suas vítimas.

Riem e riem e riem.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Todos os horrores do passado — os horrores da perseguição aos cristãos na Roma antiga, as "santas" inquisições da Idade Média — tudo renasce, a selvageria absoluta de tudo isso renasce, no poder das iniquidades mais profundas que hoje estão ao alcance do homem.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. E os países ditos cristãos em todo o mundo, e os países que fingem observar os preceitos de poderosos Membros da Companhia da Compaixão, permanecem contentes em sofrer aqueles que colocaram em autoridade sobre eles, seus governantes e governos, a permanecerem em silêncio, a não tomarem nenhuma ação, a não fazerem nenhuma denúncia.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. E enquanto a civilização está sendo febrilmente, impiedosamente, à maneira grosseira dos antigos destruidores dos nobres, e dos odiadores manchados de sangue dos fracos, despedaçada, há algumas nações que têm medo de serem feridas, e conivem com qualquer expediente, honroso ou desonroso, para se manterem a salvo!

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Essas nações permitem que seus governos mantenham relações cordiais com aqueles que praticam a iniquidade, pois não têm coragem de denunciá-la e fazer guerra contra ela. Quando o erro é tolerado, é protegido do ataque, seus exércitos estão avançando sobre o certo e o atacando. Há guerra, mas essas nações escolhem dar-lhe as costas e dizer que ela não existe.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Há guerra.

Há degradação.

Há desonra.

E disso deve surgir o sofrimento.

Onde o erro é generalizado, onde as forças da barbárie estão triunfando sobre as forças da civilização, onde a paz e a fraternidade estão em perigo, que haja a mais severa denúncia a qualquer custo, e que o espírito de guerra seja solenemente invocado para deter o mal que ameaça o mundo inteiro.

Algumas nações e seus governos estão contando e contando e contando o custo.

E continuam contando enquanto os gritos dos indefesos soam terrivelmente em ouvidos que eles fariam de surdos.

Eles veem seus semelhantes, veem mulheres e crianças, mergulhados aos milhares em miséria medonha.

E dizem que não podem se dar ao luxo de ajudá-los.

É caro demais.

Devem pensar em si mesmos primeiro.

Então saem buscando toda sorte de compromissos, todos os tipos de ajustes.

Correm para cá e para lá, e declaram estar muito satisfeitos com as relações cordiais que mantiveram ou talvez estabeleceram.

Assinam documentos.

E as forças da barbárie riem e riem e riem.

Riem porque essas coisas não fazem a menor diferença para elas.

Riem porque veem o egoísmo de estadistas e de nações que é sempre usado para proteger seus povos do desconforto, para preservá-los da guerra, para mantê-los confortáveis em meio à agonia alheia.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar. Onde estão os países, onde estão os povos, onde estão os estadistas e líderes que prezam a honra e a justiça acima da segurança, que têm a coragem de correr riscos em prol da libertação dos fracos e oprimidos, que estão dispostos a arriscar sua própria existência numa oferta de tudo o que têm em favor da liberdade?

Os povos estão dispostos, mas os estadistas são fracos.

Têm medo, e correm para cá e para lá em vãs tentativas de assegurar uma paz que estão prontos a comprar a quase qualquer preço.

E enquanto o mundo espera por ação, pela reivindicação da [Página 31] honra e da justiça, pela proteção da civilização contra sua destruição pelos bárbaros, por homens e mulheres cujo espírito seja o espírito de grandeza e coragem, e não o espírito de conveniência e procrastinação — enquanto o mundo espera por isso, a crueldade segue seu caminho sem freios, a misericórdia permanece pisoteada, a luxúria dos selvagens continua a se saciar, e milhares e milhares de vítimas infelizes são lançadas em infernos sem fundo.

Às vezes, muitas vezes, penso que não posso suportar isso. Mas devo suportar, pois eles não podem.

Devo dar-lhes tudo o que tenho para dar, pois tudo o que tinham, até sua própria coragem moral, lhes foi arrancado.

Devo suportar, e devo procurar outros que também o suportarão.

O que outros não estão fazendo, devemos nos esforçar para instá-los a fazer. Mas, seja o que for que outros façam ou deixem de fazer, nós ao menos devemos cumprir nosso dever, ainda que quase sozinhos.

Não podemos fazer mais do que isso, e mais do que isso não nos é exigido.

Deus está em Seu céu, e se nos esforçarmos para ser deuses na terra, tudo ainda estará bem.

Sim, suportarei, e com alegria.

"Na medida em que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes." (Mateus 25, 40.) [Página 32]

UM CHAMADO AOS ESPÍRITOS NA PRISÃO

Theosophist, Dez, 1925.

EIS aqui outro exemplo do trabalho de um servo da Vontade, uma obra que tive o privilégio de empreender já em 1925, quando entrei pela primeira vez neste serviço.

Não havia naquela época as urgências particulares que agora nos confrontam. Mas urgência sempre há, de um tipo ou de outro, e os servos da Vontade devem estar prontos para todas as urgências, para todas as emergências, para uma gama muito ampla de serviço.

Neste caso particular, a Vontade foi empregada para tentar libertar de sua escravidão um número daqueles que, tendo servido às forças das trevas, e tendo sob a Lei entrado nas prisões de sua própria criação, estavam finalmente, também sob a Lei, prontos para a libertação se pudessem ouvir a voz de um mensageiro da Luz chamando-os a serem livres uma vez mais.

Variada é, de fato, a nossa obra, mas nada dela está além de nossa capacidade de realizar se fizermos os fundamentos de nosso serviço puros e impessoais, como descrevi nas partes anteriores deste livro.

E mesmo que nem sempre possamos permanecer nas alturas que às vezes nos vemos capazes de alcançar, podemos ao menos erguer nossos olhos para os montes que [Página 33] ascendemos, resolvidos a ascendê-los uma vez mais, e de novo e de novo, até habitarmos para sempre nos cumes.

Quem subirá ao monte do Senhor? Ou quem permanecerá no Seu lugar santo? Aquele que tem mãos limpas e coração puro; que não elevou sua alma à vaidade, nem jurou enganosamente.

Este receberá a bênção do Senhor, e a justiça do Deus da sua salvação.

Salmo 24.

MEUS IRMÃOS,

Neste grande momento, ao verdes como a luz deve sempre penetrar e triunfar sobre as trevas, ao verdes um Filho da Luz mais uma vez vencedor inevitável sobre sombras fugazes, exorto-vos, pelo amor que me vistes usar contra vós, pelo poder do Rei que é sua forma irresistível, a lançar fora vossas trevas e entrar na Luz — vosso verdadeiro lar, embora dele tenhais sido errantes por longas eras.

Falo-vos, bem o sabeis, em nome do Senhor da Luz, da Vida e da Glória, de Quem sou Mensageiro consagrado, cuja Estrela trago em sinal de minha autoridade.

Sabei, meus irmãos, que em vosso caminho atual não podeis, em última instância, prevalecer, pois ele conduz apenas para trás, até que uma vez mais encontreis o Caminho da Luz.

No máximo, podeis apenas retardar, e à medida que o tempo passa, até esse poder definha.

Olhai para trás, para vosso caminho, e não podeis deixar de observar como, pouco a pouco, a luta se move para vossa desvantagem sempre crescente.

Não sejais cegos e tolos.

Cessai de enganar [Página 34] a vós mesmos, pois quanto mais tempo continuardes a andar nas sombras de vossa própria criação, mais rude será o despertar para a Luz.

Olhai comigo através das perspectivas do passado.

Observai comigo vossas chamadas vitórias.

Vós as vedes agora? O que são mesmo as melhores delas, aquelas em que vos vejo ter mais orgulho, senão efêmeras, sem que uma única delas tenha impedido nossos Senhores de Amor, Sabedoria e Compaixão de aproximarem cada vez mais de Si os filhos do Fogo, raça à qual, meus irmãos, vós também pertenceis, embora negueis vossa origem.

Em termos de tempo, podeis aqui e ali ter obtido uma fugaz retarda ção, a um preço para vós mesmos muito além da duração da retarda ção que alcançastes, mas olhai novamente para essas vossas "vitórias", as mais poderosas de vossas investidas, olhai comigo como me é permitido permitir-vos; alguma delas — olhai, meus irmãos, olhai — sequer por um momento agitou as águas profundas e calmas da Eternidade enquanto seguem seu curso em divina inexorabilidade sobre sua rota designada? Ah! Sim.

Agora vedes de que natureza é vossa futilidade.

Sabei, então, que não é tarde demais para mudar.

Cessai, irmãos, de ser os escravos que sabemos que sois, embora vos considereis reis em vossa ilusão autocriada.

Não podeis fazer uma Eternidade a partir das sombras temporais de vossa própria criação.

Não podeis deter o tempo, seja qual for vosso poder, pois o tempo é servo da Eternidade, e se move apenas de acordo com as Leis Eternas, às quais prestais tão relutante lealdade, cumprindo enquanto imaginais estar quebrando.

A Eternidade está fora de vosso [Página 35] alcance, mas vós estais dentro de seu domínio que tudo abrange.

Olhai para dentro de vós mesmos.

Não é a Eternidade o coração até mesmo de vosso ser? Como procurais moldar a partir dela sua própria negação!

Minhas mãos estão estendidas a vós, meus irmãos, agarrai-as e deixai-me atrair-vos para perto de mim, para fora de vossas trevas, irmãos-filhos do Fogo, irmãos-faíscas da poderosa Chama-Mãe.

Vocês não são água, que podem tanto apagar as centelhas nos outros quanto extingui-las — a essência do vosso ser — em vós mesmos.

Assim como nós somos, assim sois vós.

Em vós está o resplendor que me vedes incorporar.

Tornai-vos o que sois.

Há dois mil anos matastes o corpo tomado como habitação pelo Senhor do Amor.

Que proveito tivestes, servos cegos de uma Sombra? Não se tornou essa mesma morte o chamado à Vida Eterna para milhões de vossos companheiros filhos do Fogo? O poder onipotente do Amor molda canais para sua efusão até mesmo a partir das próprias forças que o ódio — sua sombra escura — lança contra ele; pois o ódio não é mais do que uma distorção desse Amor onipresente que sempre sabe endireitar essas distorções do seu ser.

Irresistível é a corrente do Amor de Deus, e ela vos arrastará de volta para si mesma, pois sois do Amor, meus irmãos, e de vossas naturezas deveis compartilhar, sim, contribuir para o seu poder irresistível e seu crescimento incessante.

Abri os vossos olhos enquanto os toco com a varinha da visão.

Percebei agora a meta diante de vós, para a qual vossos passos devem sempre estar direcionados, ainda que caminheis como bêbados que voltam para casa.

Meus irmãos, não tenho glória no meu triunfo, senão uma glória que desejo que compartilheis.

Eu triunfo para [Página 36] o vosso bem, no vosso serviço, tanto quanto pelas causas que fui designado a guardar.

Em algum lugar, de algum modo, como percebo, ainda que vós não o percebais, estais regozijando porque estou vos libertando da vossa servidão.

Em algum lugar vejo que sabeis que não sou vosso inimigo, mas vosso amigo e irmão, companheiro firme no caminho da Vida e da Luz.

Aceitai estas mãos estendidas.

Caminharemos juntos, irmãos, e eu vos conduzirei, como me é permitido, aos benditos Pés do Todo-Compassivo, Que Se regozija mais por uma ovelha que se desviou do Seu rebanho, mas retorna a ele ao anoitecer, do que por aquelas que permaneceram seguras sob a Sua proteção.

Vós sois Suas ovelhas, Ele é vosso Pastor — o Pastor sempre atento ao Seu rebanho, Que vigia de noite e de dia com igual ternura sobre todos.

Vejo-vos recuar.

Não tenhais medo de que não possais, não ouseis, enfrentar o vosso Pastor.

Não sois d'Ele? E não conhece Ele os Seus? Eu vos digo que sobre a vossa escura, fria nudez Ele lançará o manto protetor do Seu infinito Entendimento, e conhecereis uma paz e um descanso que não têm sido vossos há eras.

Rendei homenagem, meus irmãos, à vossa própria luz interior eterna, e ela brilhará sobre o vosso verdadeiro caminho.

Juntos, quebremos os vossos grilhões, para que possais ser livres para escalar novamente, comigo, vosso companheiro de batalha, ao vosso lado.

Escutai, meus irmãos, as dissonâncias conflitantes do vosso ser; não estão elas começando lentamente a se dissipar ao longe? Não estão as músicas das vossas harmonias essenciais lenta mas seguramente re-despertando em desdobramento para um triunfo inevitável de realização? [Página 37] Hoje os sóis das vossas naturezas se erguerão novamente para dissipar a vossa escuridão.

Já sentis o calor do seu brilho.

Já percebeis os primeiros raios da sua luz radiante, a suave e jovem renovação da certeza eterna de um futuro majestoso e glorioso.

Não olheis para trás, para a noite.

Olhai para a frente, para a Luz, e tudo estará bem.

A dor e o sofrimento serão vossos, pois através de vós eles vieram a outros.

Mas eu estarei convosco para vos lembrar que cada agonia que a Lei exige de vós é uma libertação em direção à Luz, e nas colheitas das terríveis solidões que causastes a outros, nas colheitas da miséria, tristeza, desespero, que semeastes em outros, ainda ouvireis soando fracamente a nota de uma paz eventual, contanto que agora permitais entrar em vossos corações aquele raio da Compaixão do nosso Bendito Senhor que, em Seu Grande Nome, eu, um Regente em Sua Igreja, envio em vossa direção, ordenando-lhe que lhe deis um lugar de morada em vossos tristes e frios corações.

Um irmão bate amorosamente às vossas portas; estará tudo dentro em silêncio e quietude? Eu vos digo, meus irmãos, vinde da vossa morte para a Sua Vida.

Saí do vosso cativeiro para a Sua Liberdade.

A bênção da Grande Fraternidade da Luz esteja sobre vós, viajantes cansados que perdestes o caminho, para que morrais para a falsidade e entreis na verdade, para que entreis naquele carma de sofrimento que transmutará a força do vosso ódio em um poderoso poder de amor.

Não haverá agonia sem a coragem de suportá-la.

Vinde então, meus irmãos.

Vinde comigo Àquele Que vos espera com a anseio [Página 38] ternura do Pai por filhos amados, que por um tempo partiram do seu verdadeiro lar para uma escuridão exterior, mas sem cujo retorno à casa do seu Pai a Sua felicidade permaneceria incompleta.

Vinde, meus irmãos, vinde!

O espírito de perseguição encontra seu abrigo onde pode, mas uma vez que encontra um lugar de morada em qualquer parte, o mundo inteiro corre o perigo de se tornar seu lar.

Ai, portanto, daqueles que o abrigam, pois estão crucificando o mundo inteiro.

[Página 39]

O MUNDO ESTÁ EM GUERRA POR SUA ALMA

"POIS que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus 16, 26.)

Hoje o mundo está mais uma vez em guerra por sua alma.

Assim foi de 1914 a 1918, e embora sua alma tenha sido salva, a segurança parece ter sido apenas por um tempo, pois hoje há aqueles no mundo que buscam ganhar o mundo, mas que não parecem saber que o mundo que esperam ganhar só pode ser o corpo, a forma, a casca exterior.

O ganho do mundo por eles seria ao custo da alma do mundo e de suas próprias almas, não menos.

Os poderosos Guardiões do mundo não permitirão isto.

Eles não permitirão que o mundo seja ganho às custas de sua alma.

Mas o custo da recusa e a dor dela dependem em grande parte daqueles que são os mais civilizados habitantes do mundo — que habitam as regiões mais elevadas da humanidade.

Se tais pessoas hesitam, temem, permitem que seus próprios interesses, os interesses de seus países, os interesses de suas fés, pesem mais na balança do que os interesses do mundo como um todo, então o custo da recusa necessariamente aumentará, e a dor dela necessariamente será intensificada.

[Página 40]

De um lado, há aqueles que buscam conquistar o mundo inteiro para seus interesses egoístas e mesquinhos, e cujas armas de tomada são o ódio, a impiedade, a perseguição, a indiferença insensível à honra e à justiça, o desprezo pela misericórdia.

De outro lado, há aqueles que sinceramente abominam tal barbárie, mas que são incapazes de lidar com forças que consideram todos os meios justificados para atingir o fim em vista, e que hesitam em envolver suas nações nos horrores da guerra a fim de preservar para o mundo a sua alma.

Tais boas pessoas que hesitam temerosamente, que buscam aplacar em vez de denunciar, e que estão dispostas a comprar a paz a quase qualquer preço, são quase tão ameaçadoras para o mundo quanto aqueles que deliberada e abertamente buscam escravizá-lo.

O mundo está em guerra.

Há as forças das trevas que não têm fraqueza ou vergonha de declarar sua causa e lutar por ela a qualquer custo.

Há as forças que buscam algum tipo de compromisso entre as trevas e a luz, dispostas a que a luz comprometa sua natureza para que as trevas exaltem a sua.

E há as forças da luz, que não conhecem compromisso, que não têm fraqueza ou vergonha de declarar sua causa e lutar por ela a qualquer custo, sabendo que grande é a Luz e que Ela prevalecerá, e sabendo que nenhum custo é demasiado grande no serviço à Luz.

A qual exército você pertence? A resposta é pouco duvidosa.

Apenas uma pequeníssima proporção da humanidade do mundo está conscientemente lutando contra a alma do mundo, [Página 41] buscando arrancar o mundo de sua alma.

Uma proporção muito pequena, mas uma proporção que não pode ser ignorada porque é altamente organizada e sabe bem como usar todos os artifícios do poder para esmagar o Direito sob seus pés.

Uma certa proporção da humanidade do mundo está indefesa nas armadilhas daqueles que constituem essa banda de inimigos do mundo.

Mas a vasta maioria da humanidade do mundo de fato pertence ao exército da Luz, seu valor e eficácia dependendo em grande parte da liderança que desfruta.

No mundo de hoje há poucos líderes.

Nos altos postos, nos cargos e no poder estão aqueles de visão limitada, de pequena estatura política, tímidos, hesitantes, sempre com medo de correr um risco em prol de aproveitar uma oportunidade.

Assim é que o exército das trevas, na verdade pequeno em número, triunfa em todas as frentes, pois à medida que avança, os líderes do outro lado recuam; à medida que insiste, os líderes do outro lado cedem.

Abissínia? Que o povo da Abissínia pague o preço da paz que queremos.

Os judeus? Que eles paguem o preço da paz que queremos.

A China? Que ela pague o preço da paz de que necessitamos.

Que tipo de paz é essa que assim é comprada? Podemos obter uma paz, podemos desfrutar de uma paz, podemos reter uma paz, que é comprada com o martírio dos fracos e indefesos, com o sangue de suas feridas e com o terrível pesar de suas desolações? Como ousamos dizer: Paz em nosso tempo, ó Senhor! [Página 42]

Não clamará este martírio, este sangue, este pesar, por vingança não apenas contra aqueles que diretamente o causaram, mas contra nós que não levantamos um dedo contra ele, apenas aqui e ali um grito, por medo de que nos tornemos afligidos como esses infelizes, em centenas de milhares, estão sendo afligidos todos os dias?

A caridade, diz-se, começa em casa.

Também se diz que não termina aí.

Que se diga ainda que a caridade que permanece em casa e não sai para fora logo murchará e decairá.

Há apenas um mundo.

O mundo tem apenas uma alma.

Há apenas uma caridade que, embora emanando do coração e abrangendo todo o corpo, não para aí nem nas fronteiras de qualquer terra ou de qualquer fé, mas surge sempre adiante e para fora até alcançar o fim do arco-íris: e então — ?

A falta de caridade ergue fronteiras alfandegárias e ao menos exige taxas em conformidade ou em conversão, se não em outras formas.

A caridade não conhece distinção de fronteiras, não por negá-las, mas por aceitá-las, e ao aceitar não pede conformidade ou conversão, mas permanece contente em dar.

A caridade exigiu de nós que saiamos para salvar os aflitos, os fracos e os enlutados, pois somente assim salvaremos a vida — a única Vida, a nossa e a de tudo o que vive.

"Pois qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas qualquer que perder a sua vida por amor de Mim e do Evangelho, esse a salvará." (Marcos 8, 35) [Página 43]

Estamos cuidadosamente salvando nossas vidas, contudo, se o Cristo foi crucificado para salvar o mundo, não pode haver alguma forma de crucificação para nós salvarmos os abissínios, os judeus, os chineses?

Eu digo que o espírito do Cristo está presente nestes dias de trevas, buscando onde possa habitar em força e santo propósito.

O espírito do Cristo desceu à Terra em resposta ao clamor daqueles que, em todo o mundo, foram afligidos pelas crueldades do homem.

O próprio Cristo está presente, pois "Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos." (Mateus 28, 20.) Onde está Ele? Onde mais poderia estar senão onde Seus filhos estão afligidos, estão desolados, estão em desespero.

E enquanto Ele os consola, Ele olha para o mundo e diz: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada." (Mateus 10, 34.)

Quem está tomando a espada? Ele necessita hoje do soldado.

Ele necessita daqueles que tomarão sua cruz e O seguirão na luta pelo amor e pela justiça.

Cada país do mundo é abençoado pela grandeza e pelos grandes que a incorporaram para todos contemplarem.

Nunca mais do que agora essa grandeza foi necessária.

Nunca mais do que agora o mundo precisou dos grandes.

Nunca mais do que agora o mundo inteiro precisou reunir sua grandeza para que os povos do mundo possam erguer-se nela para purgar o mundo de sua escuridão, para que ele não perca sua alma.

[Página 44]

E a grandeza de que necessita é a grandeza que tornou cada nação cavalheiresca, nobre, pura no sacrifício, forte na justiça, rica em cultura.

Se tal grandeza for incorporada pelos cidadãos em cada terra, então os Salvadores do mundo os conduzirão à vitória.

Na Europa, que haja uma Federação das terras do norte.

Que haja uma Federação do Oeste.

Que haja uma Federação do Sul.

Que haja uma Federação do Leste.

Que os Estados Unidos da América ajudem o mundo a salvar sua alma, e que a Índia, a Mãe do mundo ariano, recupere a liberdade de sua própria alma ajudando o mundo inteiro a lutar pela alma do mundo.

Que cada país vista o manto de sua grandeza.

Que cada um cingisse a espada do serviço.

Que cada um assuma a coroa de sua retidão.

Que haja uma dedicação mundial à Fraternidade Universal.

Então a guerra do mundo por sua alma terá sido vencida.

Lançai-vos na brecha,
Enviai vosso ser
Pulsando profundamente, em intenção irresistivelmente
Até as próprias fronteiras de vosso esforço.

[Página 45]

A VONTADE DO SILÊNCIO

HÁ momentos em que, para o servidor da Vontade, a escuridão se torna tão opressiva, tão aparentemente impenetrável, que nenhuma Luz, nenhuma Cor, nenhuma Forma, nenhum Som parece capaz de afetá-la. Parece que até o avançar, como o descrevi, não alcança resultado algum, pois a escuridão vestiu sua armadura de aço de separatividade absoluta e aponta para fora sua espada afiada de destruição. A Luz se ergue contra a escuridão, e pareceria que não poderia haver vitória para nenhum dos lados, que tanto a escuridão quanto a Luz devem exercer seu domínio em todos os mundos.

Em tais momentos, porém, o servidor da Vontade tem um poderoso poder em reserva — esse próprio Silêncio que é o Progenitor do Som, Rei supremo de tudo, cuja Voz é onipotente, onisciente, onipresente. Recolhendo-se em seu Ser mais íntimo, o calmo e abnegado servidor da Vontade pode invocar este Pai-Mãe da Vida manifestada para que Ele execute sua Vontade irresistível. Nenhum servidor da escuridão ousa invocar este Silêncio, esta essência da Vida, da Luz e da Glória do Ser.

Em silêncio absoluto invocando esse Silêncio, tudo será feito de acordo com a Lei perfeita, não como o servidor da Vontade possa julgar justo, não para uma vitória tal como ele possa querer, não para tal confundimento [Página 46] da escuridão como ele possa ver como o funcionamento da Lei, mas como for a própria Vontade do próprio Deus.

Em rendição absoluta, em alegria profunda, em submissão perfeita, em êxtase de transfiguração, o servidor da Vontade torna-se um com a Vontade do Silêncio, seja que a Vontade permita que a própria escuridão siga ainda imperturbada em seu caminho, seja que a própria Luz seja permitida a recuar diante da escuridão que se gloria em seu triunfo.

Quando a escuridão está em seu ponto mais escuro e este Tapas do Silêncio é realizado, uma poderosa paz envolve o servidor da Vontade que o realiza, e ele é transcendente, quer conquiste, quer sofra a derrota que parece além da redenção.

Sua confiança é perfeita. Sua cooperação com a Vontade suprema que ele invocou é impecável. Ele ascende ao Céu, se assim for querido, em radiância feliz. Ao Inferno ele desce não menos gloriosamente. Pois é o Silêncio que o eleva ao Céu, é o Silêncio que o envia para um Inferno. O Senhor elevou. O Senhor derrubou. Bendito seja o nome do Senhor.

Tapas é a Soberania do Ajuste.